Nunca tive a chance de perguntar aos amigos Alberto Guzik , Mário Viana e Marta Góes que, como eu, começaram a vida no jornalismo para algum tempo depois se dedicar à dramaturgia, se eles têm um olhar específico para as reportagens que produziram em suas carreiras, e um outro destinado às peças, contos e biografias que também saíram de suas mãos. Na verdade, o que eu gostaria de saber deles é se é possível a existência desses dois olhares e como cada um deles se comporta. Pode parecer uma pergunta trivial, mas acho que ela faz toda diferença do mundo. De sua resposta depende, acredito, o grau de satisfação (ou não) que sentimos diante de cada ponto final.
Como os três queridos amigos que citei acima, eu também fui treinado profissionalmente para dar conta do imediatismo. Por mais interessantes, informativos e saborosos que pudessem ser os nossos textos nos jornais e revistas em que trabalhamos, sabíamos sempre que eles estavam condenados a uma morte prematura. No caso das revistas, talvez tivessem eles uma sobrevida de poucas semanas, mas nos jornais diários nossos textos estariam irremediavelmente mortos na hora do almoço do dia seguinte. E isso porque construímos nossas carreiras antes da chegada avassaladora da Internet. Hoje, um repórter da mídia impressa sabe que, na maioria das vezes, seu texto não passa de uma bela criança natimorta: se ele conclui uma matéria às seis da tarde, ela já estará velha desde as cinco. Em pouco tempo, até os peixes exigirão ser embrulhados por notícias mais quentes e interessantes.
Me lembro de um episódio ocorrido quando eu era redator do Jornal da Tarde. A revista New Yorker havia publicado um artigo imenso sobre o maestro e arranjador Quincy Jones. O jornal adquiriu os direitos de publicação, traduziu o material e um editor pediu para que eu deixasse o texto no tamanho – o que vale dizer que 2/3 de todo aquele palavrório deveria ser cortado. Era um texto tão bem redigido e com as informações tão emaranhadas que, se eu cortasse uma linha aqui, ela iria fazer falta no parágrafo seguinte. Trabalhei dois dias na edição daquele texto. Quando entreguei o material pronto para o editor, estava feliz com o resultado: o que era realmente relevante no artigo sobre o maestro parecia estar ali. A matéria seria publicada no dia seguinte. Quando chego para trabalhar, às 11h da tal manhã seguinte, vejo as duas páginas com toda a história do Quincy Jones encharcadas e jogadas no bueiro. Havia chovido, parte do jornal desceu literalmente pelo ralo e justamente aquelas duas páginas estavam ali, para me alertar sobre a fragilidade do nosso trabalho e a brevidade das nossas aspirações. Aquelas duas páginas sobre o bueiro formam uma imagem que irá me acompanhar para sempre.
Faço todas estas divagações a propósito de um fato concreto: há 15 dias, a Imprensa Oficial do Estado publicou, em um livro chamado O Teatro de Sérgio Roveri, quatro de minhas peças: O Encontro das Águas, Abre as Asas Sobre Nós, Andaime e O Funil do Brasil. Depois de muito tempo, voltei a ler estes textos, agora impressos, e a imagem do jornal com o Quincy Jones voltou a me assombrar: até que ponto resistiremos? Ou melhor: qual será o destino, a validade, a função e o objetivo das coisas que fazemos? Vejam: é uma questão prática e funcional, sem nenhuma conotação pessimista ou mesmo derrotista. E, o mais importante: uma questão que não esconde nenhum desejo de reconhecimento e posteridade. Até porque, sempre que ouço alguém dizer que está produzindo uma obra para ficar, eu rio de tanta pretensão. Eu sempre acreditei que, nesta vida, a gente só fica pra titia.
Reli os quatro textos e tive a tranqüila sensação de que continuaria a assumir a paternidade de cada um deles – o que é raro. No entanto, é preciso admitir que alguma coisa mudou: os textos cumprem, com honestidade, a função de revelar uma história que um dia eu desejei contar. Hoje eu contaria as mesmíssimas histórias, mas talvez de forma diferente – e então eu percebo que o tempo só faz colaborar para que a gente se torne obcecado pela palavra exata, pelo sentido inconfundível, pelo frescor que os dias apagam. Eu sinto que algo poderia ser mudado, mas não sei precisar o quê – até me dar conta que não temos o destino às vezes cômodo das histórias, que as páginas dos livros abrigam e preservam. Em um único dia, levantamos uma pessoa e somos outra na hora de dormir – e nada de tão importante assim aconteceu. Apenas uma camada nossa morreu, como uma casca que a cebola despreza. Parece, então, haver uma ingenuidade naquilo que fizemos num passado recente – e os dias, assustadoramente, estão nos tornando um pouco mais cruéis e talvez um pouco mais cínicos. A gente descobre, ao visitar o nosso passado de palavras, que a ingenuidade agora é algo que nos incomoda, porque parece que ela não diz mais respeito a uma pretensa pureza de espírito. Ou a uma benvinda inocência. Detectar ingenuidade em algo que fizemos parece sinalizar que não fomos espertos o suficiente, só isso.
Um dia, ainda vou pedir para que os amigos acima me digam sinceramente o que eles sentem quando esbarram em sua própria obra pelas lentes do tempo. Talvez a questão seja apenas uma grande encanação da minha cabeça, mas eu continuo acreditando que este tema, de tão poderoso, pode separar o dia da noite naquilo que fazemos.
Uma curiosidade: sempre que estes assuntos impalpáveis cutucam a minha cabeça, eu me lembro de uma entrevista do genial diretor de cinema John Houston. Um dia, pediram para que ele falasse sobre Marilyn Monroe. Ele disse exatamente o seguinte: “Marilyn Monroe era exatamente igual a milhares de loiras que chegam todos os anos a Hollywood para tentar a carreira no cinema. Mas ela era diferente”. Em três linhas ele disse tudo que eu tentei dizer no imenso post acima. Talvez sem conseguir.
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Domingo, Novembro 08, 2009
O caso do vestido
Quando abri os jornais nesta manhã de domingo e li que a garota Geisy, aquela que incendiou de desejo, volúpia e bestialidade o campus da Uniban ao aparecer para as aulas no curso de turismo com um microvestido cor-de-rosa (que cá entre nós é bem sem gracinha), havia sido expulsa da faculdade, precisei de algum tempo para acreditar que o que eu tinha nas mãos, mesmo, era um jornal brasileiro, e não um tablóide do Paquistão, Irã ou Afeganistão. A notícia, por si só indigesta, ia se tornando cada vez mais repulsiva quando se lia o motivo da expulsão. De acordo com a Uniban, a garota precisou ser excluída do quadro de alunos porque havia muito tempo ela já “se insinuava” para os colegas. O obscurantismo é tamanho que a vontade é de rir. Punir um jovem brasileiro (vamos colocar no masculino para a afirmação assumir um caráter mais genérico), às vésperas do verão, porque ele se “insinua” é dar as costas à própria cultura do nosso país: o que temos feito, nos últimos 500 anos, em nossas praias, em nossas festas, em nossa alegria popular provavelmente única no mundo a não ser praticar o jogo da sedução?
Claro que alguém poderá dizer que a sedução tem hora e local propícios para se desenvolver e que os bancos universitários foram feitos para a prática monástica dos estudos, e não dos olhares de cobiça. Será mesmo? O grande erro de Geisy teria sido, então, seduzir em hora e local inadequados? Somente aceitando este ponto de vista é que podemos entender por que ela foi expulsa por usar um vestidinho provocante enquanto que os jovens violentos que torturam e matam calouros nos trotes têm seus nomes e suas matrículas preservados pelas grandes faculdades do País. Porque estes jovens sabem exatamente como agir: eles são violentos, cruéis e assassinos nos campus universitários – onde a violência e o homicídio são tolerados, mas a sedução, não. E isso num país que faz do seu jogo de sedução moeda corrente e que orgulha-se de exibir ao resto do mundo as bundas bronzeadas das jovens nas praias com o mesmo afã que exibe os índices animadores da economia. É um país muito estranho, não há dúvida.
Este post não tem a menor intenção de defender Geisy. As entrevistas e a postura da garota revelam que ela não precisa de defensores. Articulada e direta, ela sabe exatamente em que armadilhas a universidade pisou ao assinar seu termo de expulsão, e agora está pronta para dar uma bela mordida nos cofres da instituição, num processo que, segura e justamente, ela deverá ganhar. Mais que isso: que me perdoem os puristas, mas todos nós sabemos que, também em outras vias, a garota saberá tirar o máximo proveito deste episódio lamentável. É contar os dias até que uma revista a convide para posar nua ou uma emissora de televisão a empregue em um programa humorístico de qualidade duvidosa. São estes os meios que a nossa sociedade encontrou de reparar aquilo que considera injusto.
Geisy deve mesmo aceitar todos os convites e aproveitar esta fama repentina. E, acima de tudo, mostrar para os xiitas da Uniban que existe um país doidinho para apreciar aquelas coxinhas roliças que tanto incomodaram o puritanismo dos seus coleguinhas de faculdade. Se é esta a linguagem que parte do país entende, que seja esta a linguagem usada então.
Claro que alguém poderá dizer que a sedução tem hora e local propícios para se desenvolver e que os bancos universitários foram feitos para a prática monástica dos estudos, e não dos olhares de cobiça. Será mesmo? O grande erro de Geisy teria sido, então, seduzir em hora e local inadequados? Somente aceitando este ponto de vista é que podemos entender por que ela foi expulsa por usar um vestidinho provocante enquanto que os jovens violentos que torturam e matam calouros nos trotes têm seus nomes e suas matrículas preservados pelas grandes faculdades do País. Porque estes jovens sabem exatamente como agir: eles são violentos, cruéis e assassinos nos campus universitários – onde a violência e o homicídio são tolerados, mas a sedução, não. E isso num país que faz do seu jogo de sedução moeda corrente e que orgulha-se de exibir ao resto do mundo as bundas bronzeadas das jovens nas praias com o mesmo afã que exibe os índices animadores da economia. É um país muito estranho, não há dúvida.
Este post não tem a menor intenção de defender Geisy. As entrevistas e a postura da garota revelam que ela não precisa de defensores. Articulada e direta, ela sabe exatamente em que armadilhas a universidade pisou ao assinar seu termo de expulsão, e agora está pronta para dar uma bela mordida nos cofres da instituição, num processo que, segura e justamente, ela deverá ganhar. Mais que isso: que me perdoem os puristas, mas todos nós sabemos que, também em outras vias, a garota saberá tirar o máximo proveito deste episódio lamentável. É contar os dias até que uma revista a convide para posar nua ou uma emissora de televisão a empregue em um programa humorístico de qualidade duvidosa. São estes os meios que a nossa sociedade encontrou de reparar aquilo que considera injusto.
Geisy deve mesmo aceitar todos os convites e aproveitar esta fama repentina. E, acima de tudo, mostrar para os xiitas da Uniban que existe um país doidinho para apreciar aquelas coxinhas roliças que tanto incomodaram o puritanismo dos seus coleguinhas de faculdade. Se é esta a linguagem que parte do país entende, que seja esta a linguagem usada então.
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
Palavrinha mágica
Conheço algumas pessoas obcecadas por tecnologia, outras por dieta, algumas poucas por informação e outras tantas por compras. Tento pensar nas minhas obsessões e percebo que não há nada, ao menos nos últimos meses, que me ocupe tanto a atenção quanto a passagem do tempo. Não sei se isso chega a ser exatamente uma obsessão, mas o certo é que tenho buscado por este assunto nos livros, nos filmes e principalmente nas conversas. A passagem do tempo, ao menos na forma como a venho encarando, não tem a ver necessariamente com agum processo de envelhecimento – penso mais sobre o efeito sutil que o acúmulo de anos e sensações exerce sobre nossa maneira de enxergar o mundo e a nós mesmos.
Há algumas semanas – e já escrevi sobre isso aqui – eu tive a oportunidade de entrevistar a Fernanda Montenegro a propósito de seus 80 anos, completados agora em outubro. Na última quinta-feira, conversei com a atriz Christiane Torloni, que está em cartaz na cidade com a peça A Loba de Ray Ban. O texto é a versão feminina do espetáculo O Lobo de Ray Ban, que a própria Torloni fez em 1987, quando tinha 30 anos. Ela usou grande parte da entrevista para falar sobre estes dois momentos de sua vida, aos 30 e agora aos 52 anos.
Os 30, segundo ela, trouxeram, além da consolidação profissional, uma certa calma que até aquele momento ela dizia desconhecer. Como as coisas na vida parecem estar muito interligadas, a calma foi necessária para que ela pudesse investir objetivamente na carreira. “Foi o período em que eu comecei a me sentir realmente uma mulher, liberta de qualquer resquício herdado da adolescência”, ela disse.
E então ela chega aos 52 anos e diz que é preciso ter muita coragem para entrar nesta idade, "pois você se vê obrigada a abandonar uma zona de conforto na qual você viveu até este momento". É como, segundo o raciocínio da atriz, se os 50 anos viessem acompanhados de alguma compensação pelas coisas bacanas que você fez e também pelas cobranças de tudo aquilo que deveria ter feito e deixou para trás. Daí a necessidade de muita coragem para dar os passos necessários e inevitáveis rumo ao meio século.
Fiquei pensando muito nesta palavra: coragem. Por coincidência, encontrei com um amigo mais jovem e muito mais safado que eu dois dias após a entrevista. Enquanto tomávamos um café, comentei com ele sobre estes depoimentos da atriz. Ao nosso lado, como se para ilustrar esta conversa, havia uma revista justamente com a Christiane Torloni na capa e em fotos sensuais nas páginas internas. Perguntei se ele encarava. Ele disse que sim, que ela era linda e ele a encararia sem problemas, “desde que se esquecesse que ela tem 52 anos”. Mais cruel, impossível. Naquela hora entendi o que ela quis dizer com “é preciso ter coragem para passar dos 50”. Senti que é algo que as pessoas não perdoam em você.
Na terça-feira, para alimentar um pouco mais minha obsessão com este assunto, leio na Folha de S. Paulo um colunista dizendo que nossa época só venera dois deuses: o da juventude e o da saúde. Se o colunista estiver certo, o ser humano deve ser muito masoquista mesmo, pois conseguiu encontrar dois deuses mais cruéis que o deus dos católicos. Os deuses da juventude e da saúde estão dispostos a nos abandonar a qualquer hora – e nos abandonarão no momento em que mais precisarmos deles. O da juventude, este então, começou a nos abandonar na hora exata em que nascemos, o que me faz crer que é muito injusto seguir com esta veneração para com qualquer um deles.
Chego ao final deste post sem nenhuma conclusão, a não ser a de que o tempo,
tenhamos ou não coragem, irá passar de qualquer maneira e o melhor que temos a fazer é encarar esta passagem com alguma leveza e também com alguma indulgência em relação aos planos que não conseguimos levar adiante. Até porque só existe uma maneira de a gente interromper a passagem do tempo, pelo menos para nós mesmos. E,sem nenhum julgamento moral, acho melhor a gente nem pensar nesta hipótese. Nossa guerra contra o tempo já nasceu como um jogo perdido, mas pode haver muita diversão durante as batalhas. Talvez coragem seja mesmo a palavra.
Há algumas semanas – e já escrevi sobre isso aqui – eu tive a oportunidade de entrevistar a Fernanda Montenegro a propósito de seus 80 anos, completados agora em outubro. Na última quinta-feira, conversei com a atriz Christiane Torloni, que está em cartaz na cidade com a peça A Loba de Ray Ban. O texto é a versão feminina do espetáculo O Lobo de Ray Ban, que a própria Torloni fez em 1987, quando tinha 30 anos. Ela usou grande parte da entrevista para falar sobre estes dois momentos de sua vida, aos 30 e agora aos 52 anos.
Os 30, segundo ela, trouxeram, além da consolidação profissional, uma certa calma que até aquele momento ela dizia desconhecer. Como as coisas na vida parecem estar muito interligadas, a calma foi necessária para que ela pudesse investir objetivamente na carreira. “Foi o período em que eu comecei a me sentir realmente uma mulher, liberta de qualquer resquício herdado da adolescência”, ela disse.
E então ela chega aos 52 anos e diz que é preciso ter muita coragem para entrar nesta idade, "pois você se vê obrigada a abandonar uma zona de conforto na qual você viveu até este momento". É como, segundo o raciocínio da atriz, se os 50 anos viessem acompanhados de alguma compensação pelas coisas bacanas que você fez e também pelas cobranças de tudo aquilo que deveria ter feito e deixou para trás. Daí a necessidade de muita coragem para dar os passos necessários e inevitáveis rumo ao meio século.
Fiquei pensando muito nesta palavra: coragem. Por coincidência, encontrei com um amigo mais jovem e muito mais safado que eu dois dias após a entrevista. Enquanto tomávamos um café, comentei com ele sobre estes depoimentos da atriz. Ao nosso lado, como se para ilustrar esta conversa, havia uma revista justamente com a Christiane Torloni na capa e em fotos sensuais nas páginas internas. Perguntei se ele encarava. Ele disse que sim, que ela era linda e ele a encararia sem problemas, “desde que se esquecesse que ela tem 52 anos”. Mais cruel, impossível. Naquela hora entendi o que ela quis dizer com “é preciso ter coragem para passar dos 50”. Senti que é algo que as pessoas não perdoam em você.
Na terça-feira, para alimentar um pouco mais minha obsessão com este assunto, leio na Folha de S. Paulo um colunista dizendo que nossa época só venera dois deuses: o da juventude e o da saúde. Se o colunista estiver certo, o ser humano deve ser muito masoquista mesmo, pois conseguiu encontrar dois deuses mais cruéis que o deus dos católicos. Os deuses da juventude e da saúde estão dispostos a nos abandonar a qualquer hora – e nos abandonarão no momento em que mais precisarmos deles. O da juventude, este então, começou a nos abandonar na hora exata em que nascemos, o que me faz crer que é muito injusto seguir com esta veneração para com qualquer um deles.
Chego ao final deste post sem nenhuma conclusão, a não ser a de que o tempo,
tenhamos ou não coragem, irá passar de qualquer maneira e o melhor que temos a fazer é encarar esta passagem com alguma leveza e também com alguma indulgência em relação aos planos que não conseguimos levar adiante. Até porque só existe uma maneira de a gente interromper a passagem do tempo, pelo menos para nós mesmos. E,sem nenhum julgamento moral, acho melhor a gente nem pensar nesta hipótese. Nossa guerra contra o tempo já nasceu como um jogo perdido, mas pode haver muita diversão durante as batalhas. Talvez coragem seja mesmo a palavra.
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Almofadas
Antes que alguém pense que este blog está se tornando especialista em histórias de faxineiras e diaristas, já vou adiantando que não é o caso. No último post, falei sobre a vocação para a felicidade da Maria, diarista de um grande amigo. Hoje eu iria falar sobre um episódio desagradável envolvendo o twitter – do qual talvez eu tenha me afastado até segunda ordem – mas um pequeno diálogo ocorrido de manhã, aqui em casa, me fez mudar de ideia. Vou falar sobre a Malu, a diarista que me foi recomendada há cerca de três meses. E que, por sinal, é ótima.
Sei muito pouco sobre ela – como em geral sabemos pouco sobre as pessoas que trabalham ao nosso redor. Ela diz ser cozinheira diplomada, especialista em comidas baianas e drinques eróticos. Esta informação já rendeu várias piadas entre meus amigos, mas juro que são habilidades que ela alega possuir. Malu trabalha cantando o dia inteiro. Liga o rádio assim que chega, em uma emissora que só toca hits. Ela acompanha cada uma das músicas, sejam elas em português, inglês ou mesmo italiano. Não entendo direito o que ela canta, mas acho que é sempre bom ter alguém cantarolando dentro de casa. Eu mesmo já fiz muito isso, hoje ando muito mais calado.
Malu adora meus dois gatos, o Pirulito e a Ritinha, e fico muito constrangido em constatar que este amor não é recíproco. Logo que ela abre a porta, nas manhãs de quinta-feira, o Pirulito se esconde debaixo dos cobertores e a Ritinha pula em cima do armário da cozinha – às vezes ele pula junto, mas é raro (como no caso da foto no alto da página). Só voltam a circular pela casa quando ela vai embora. Eu já expliquei a Malu que eles resistem aos afagos dela porque é ela quem liga o aspirador aqui em casa – e um bicho que dorme 18 horas por dia odeia quem faça barulho por perto.
Isso era tudo que eu sabia sobre a Malu até hoje de manhã, quando ela foi tirar o pó dos sofás. Enquanto batia as almofadas, ela me disse: “Seu Sérgio, o senhor precisa comprar uma nova capa para estas almofadas”. Concordei com ela, dizendo que precisava mesmo, porque as almofadas estavam velhas. “O problema não é que elas são velhas”, Malu respondeu. “Tem muita coisa velha que é bonita. O problema é que elas são feias demais, Deus me livre”. Olhei para ela sem nenhuma resposta pronta, tomei banho e saí para trabalhar.
Não pensem que fiquei chateado com a observação da Malu. Ao contrário, eu adorei. Nem tanto pelo motivo da observação, e sim pela sinceridade com que ela se referiu às minhas velhas almofadas, que talvez sejam feias mesmo. Em seu lugar, eu teria feito mil rodeios, teria dito que talvez fosse elegante substituir as capas das almofadas de vez em quando, que a sala poderia ficar mais alegre, enfim, eu jamais diria que as almofadas de alguém são feias, ainda que fosse isso o que eu estivesse pensando. Confesso que senti uma inveja danada da Malu ao pensar em todas as ocasiões em que eu não fui capaz de dizer não, em que dourei a pílula, em que engoli em seco algo que deveria ter colocado para fora, todas as vezes em que, em nome de uma certa polidez, a gente acaba fazendo papel de bobo. Ninguém aprende a ser tão sincero e direto de uma hora para outra nesta vida, mas se a Malu continuar em casa por mais algum tempo, é bem capaz de eu criar coragem para começar a falar de todas as almofadas velhas e feias que cruzam o nosso caminho...
Quinta-feira, Outubro 22, 2009
A felicidade de Maria
A faxineira de um amigo é uma mulher negra e solitária. Nunca se casou. Vive em dois cômodos pequenos em Franco da Rocha, município da Grande São Paulo que só é citado na imprensa por seus índices de violência. Para vir trabalhar, no bairro das Perdizes, toma um trem de subúrbio e depois mais dois ônibus. Calculo que, num dia tranqüilo, ela deva gastar duas horas para vir ao trabalho e talvez um pouco mais para voltar para casa, na hora do rush.
Com todas estas credenciais, um dia ela chegou para este amigo e perguntou: “Seu Gustavo, é verdade que tem gente que não é feliz? Eu não entendo isso, como é que alguém pode não ser feliz nesta vida?”
Mais do que em definições filosóficas ou conceitos psicanalíticos, é nesta pequena história que eu penso sempre quando a palavra felicidade – e sua presença ou ausência em nossas vidas – me vem à mente. Maria, se não me engano é este o nome dela, concentra quase todas as particularidades que definem grande parte do trabalhador brasileiro: vive longe do emprego, tem uma remuneração baixa, só entra nos bairros da classe média pelas portas dos fundos e provavelmente sonha em algum dia ter uma casa igual àquela que ela limpa. E como é que Maria responde a tudo isso? Sendo feliz.
Quando me lembro desta história – e me lembro muito dela – imediatamente penso em tudo aquilo que parece ser necessário à nossa felicidade. Um amor, algum dinheiro, a possibilidade das compras, conforto, bem-estar, realização profissional, uma viagem no horizonte, horas dedicadas à leitura e ao lazer, cuidados com o corpo, bons amigos, um doce far-niente e a certeza de que estamos seguros quando passamos a chave na porta. Examino todos estes itens e penso que a maioria deles seja estranha a Maria. Ou desnecessária. Não a conheço, mas desconfio de que sua felicidade dependa apenas de sua capacidade de trabalhar e se manter, de seu otimismo em relação ao mundo e do fato inquestionável de estar viva.
Aos nossos olhos, não digo aos nossos olhos de classe média, mas aos nossos olhos que em algum momento de nossas vidas se tornaram tão insatisfeitos, tudo que faz Maria feliz nos parece tão pouco e, assumamos, quase desprezível diante da nossa imensa sede que não se sacia com quase nada daquilo que temos.
Acho que Maria sim é um livro de auto-ajuda, sem chavões, sem conselhos bobos e sem moralismos a preencher páginas inúteis. Mas algo me diz que sua receita não se ensina.
Com todas estas credenciais, um dia ela chegou para este amigo e perguntou: “Seu Gustavo, é verdade que tem gente que não é feliz? Eu não entendo isso, como é que alguém pode não ser feliz nesta vida?”
Mais do que em definições filosóficas ou conceitos psicanalíticos, é nesta pequena história que eu penso sempre quando a palavra felicidade – e sua presença ou ausência em nossas vidas – me vem à mente. Maria, se não me engano é este o nome dela, concentra quase todas as particularidades que definem grande parte do trabalhador brasileiro: vive longe do emprego, tem uma remuneração baixa, só entra nos bairros da classe média pelas portas dos fundos e provavelmente sonha em algum dia ter uma casa igual àquela que ela limpa. E como é que Maria responde a tudo isso? Sendo feliz.
Quando me lembro desta história – e me lembro muito dela – imediatamente penso em tudo aquilo que parece ser necessário à nossa felicidade. Um amor, algum dinheiro, a possibilidade das compras, conforto, bem-estar, realização profissional, uma viagem no horizonte, horas dedicadas à leitura e ao lazer, cuidados com o corpo, bons amigos, um doce far-niente e a certeza de que estamos seguros quando passamos a chave na porta. Examino todos estes itens e penso que a maioria deles seja estranha a Maria. Ou desnecessária. Não a conheço, mas desconfio de que sua felicidade dependa apenas de sua capacidade de trabalhar e se manter, de seu otimismo em relação ao mundo e do fato inquestionável de estar viva.
Aos nossos olhos, não digo aos nossos olhos de classe média, mas aos nossos olhos que em algum momento de nossas vidas se tornaram tão insatisfeitos, tudo que faz Maria feliz nos parece tão pouco e, assumamos, quase desprezível diante da nossa imensa sede que não se sacia com quase nada daquilo que temos.
Acho que Maria sim é um livro de auto-ajuda, sem chavões, sem conselhos bobos e sem moralismos a preencher páginas inúteis. Mas algo me diz que sua receita não se ensina.
Terça-feira, Outubro 13, 2009
O tempo das incertezas
Quando eu tinha entre 12 e 13 anos comecei – como a maioria dos adolescentes, acredito – a ser incomodado por uma série de questões para as quais não encontrava uma resposta satisfatória. Talvez eu pensasse, naquela época e com outras palavras, que a falta de respostas fosse fruto da imaturidade e do pouco, ou quase nulo, conhecimento da vida. Mas me lembro bem de acreditar que quando chegasse aos 18 anos, junto com a carteira de motorista e o livre acesso aos filmes proibidos, viria a maturidade. Os 18 anos chegaram mais depressa do que eu imaginava e não trouxeram resposta alguma. No lugar delas, novas questões.
Encarei este fato com naturalidade. Havia tanta coisa prática a ser decidida que sobrava pouco tempo para indagações existenciais ou filosóficas. Antes de pensar em conceitos como felicidade e realização, havia que se decidir sobre qual profissão escolher, como pagar pelos estudos e como circular com alguma competência pelo mundo dos adultos – esta última ainda a ser resolvida. Achei normal, então, que eu jogasse esta sabatina da vida para os 30 anos, esta sim a idade da maturidade e do conhecimento. Os 30 anos chegaram ainda mais depressa do que os 18 haviam chegado e percebi, já com alguma consternação, que às questões levantadas aos 12 anos haviam-se somado aquelas surgidas aos 18, aos 20, aos 25 e finalmente aos 30. Em comum, todas continuavam sem resposta.
A gente não se dá por vencido tão facilmente. Os tempos modernos nos ensinaram que 30 anos é quase o final da adolescência e algumas certezas só se revelariam agora, na casa dos 40. Desnecessário dizer que os 40 também chegaram e não trouxeram as respostas. Foi então que algo de novo ocorreu neste jogo: a gente finalmente se dá conta de que, ainda que a tentação exista, é inútil esperar que o tempo venha a nos trazer alguma certeza. Acredito que seja neste momento das nossas vidas, neste momento em que a gente assume que o tempo nunca foi nosso aliado de verdade, que se instala em nós uma certa melancolia, ou um certo descrédito. Ou ainda, em casos mais leves, uma certa indiferença. O que não sabíamos aos 12, continuamos sem saber aos 40 e daí por diante, sem o consolo, funcional até agora, de que era possível jogar tudo para frente.
Hoje eu acho que a grande dor da aventura humana não é a morte, a separação, a doença, o abandono ou a frustração e seus derivados. A grande dor da aventura humana é o não saber. Não me refiro ao não saber de fundo antropológico, do desconhecimento do nosso elo perdido, de onde viemos e para onde vamos, da falta de provas de que um dia nos separamos dos nossos antepassados primatas e começamos a sofrer de hérnia de disco porque decidimos andar sobre dois pés.
Eu falo do não saber pequeno, mesquinho, que nos ataca a cada manhã em que nos levantamos da cama sem justamente saber os motivos, por menores ou mais nobres que eles sejam. Falo deste não saber que vai nos acompanhar até o último dos nossos dias: por maior que seja o número de livros lidos, de trabalhos realizados, de amigos adquiridos, de filhos criados, de sucessos e fracassos acumulados e dos incontáveis dias vividos, chegará o momento em que nos olharemos no espelho e nos perguntaremos, afinal, o que estamos fazendo aqui e qual o verdadeiro tamanho da nossa importância neste mundo, se é que existe algum. E não poderemos mais jogar esta pergunta para o futuro porque o futuro, neste dia, não existirá mais. Isto sim é a face da dor, acredito eu agora.
Mas como eu disse que a gente não desiste à toa e dar murro em ponta de faca é a grande especialidade do ser humano, quem sabe aos 70 anos eu venha a ter algumas certezas que não tenho hoje... Não custa esperar. Até porque, passa cada vez mais rápido.
Encarei este fato com naturalidade. Havia tanta coisa prática a ser decidida que sobrava pouco tempo para indagações existenciais ou filosóficas. Antes de pensar em conceitos como felicidade e realização, havia que se decidir sobre qual profissão escolher, como pagar pelos estudos e como circular com alguma competência pelo mundo dos adultos – esta última ainda a ser resolvida. Achei normal, então, que eu jogasse esta sabatina da vida para os 30 anos, esta sim a idade da maturidade e do conhecimento. Os 30 anos chegaram ainda mais depressa do que os 18 haviam chegado e percebi, já com alguma consternação, que às questões levantadas aos 12 anos haviam-se somado aquelas surgidas aos 18, aos 20, aos 25 e finalmente aos 30. Em comum, todas continuavam sem resposta.
A gente não se dá por vencido tão facilmente. Os tempos modernos nos ensinaram que 30 anos é quase o final da adolescência e algumas certezas só se revelariam agora, na casa dos 40. Desnecessário dizer que os 40 também chegaram e não trouxeram as respostas. Foi então que algo de novo ocorreu neste jogo: a gente finalmente se dá conta de que, ainda que a tentação exista, é inútil esperar que o tempo venha a nos trazer alguma certeza. Acredito que seja neste momento das nossas vidas, neste momento em que a gente assume que o tempo nunca foi nosso aliado de verdade, que se instala em nós uma certa melancolia, ou um certo descrédito. Ou ainda, em casos mais leves, uma certa indiferença. O que não sabíamos aos 12, continuamos sem saber aos 40 e daí por diante, sem o consolo, funcional até agora, de que era possível jogar tudo para frente.
Hoje eu acho que a grande dor da aventura humana não é a morte, a separação, a doença, o abandono ou a frustração e seus derivados. A grande dor da aventura humana é o não saber. Não me refiro ao não saber de fundo antropológico, do desconhecimento do nosso elo perdido, de onde viemos e para onde vamos, da falta de provas de que um dia nos separamos dos nossos antepassados primatas e começamos a sofrer de hérnia de disco porque decidimos andar sobre dois pés.
Eu falo do não saber pequeno, mesquinho, que nos ataca a cada manhã em que nos levantamos da cama sem justamente saber os motivos, por menores ou mais nobres que eles sejam. Falo deste não saber que vai nos acompanhar até o último dos nossos dias: por maior que seja o número de livros lidos, de trabalhos realizados, de amigos adquiridos, de filhos criados, de sucessos e fracassos acumulados e dos incontáveis dias vividos, chegará o momento em que nos olharemos no espelho e nos perguntaremos, afinal, o que estamos fazendo aqui e qual o verdadeiro tamanho da nossa importância neste mundo, se é que existe algum. E não poderemos mais jogar esta pergunta para o futuro porque o futuro, neste dia, não existirá mais. Isto sim é a face da dor, acredito eu agora.
Mas como eu disse que a gente não desiste à toa e dar murro em ponta de faca é a grande especialidade do ser humano, quem sabe aos 70 anos eu venha a ter algumas certezas que não tenho hoje... Não custa esperar. Até porque, passa cada vez mais rápido.
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